A vida vai ganhando contornos de
rotina.
Nos fins- de-semana tenho passado as
tardes a ler numa esplanada ou num restaurantezeco com música ao vivo. Tenho
feito uma vida boa. Passeio ou corro pelo Ibirapuera, tomo um copo com os
amigos, vou a concertos, vou a museus, vou ao teatro (vá, fui... não vou desde
a relatada surpresa erótica da última vez), até para a noite eu vou! Ainda vou
ter de perceber como é que vou tendo mais tempo livre que em Portugal, mesmo
saindo mais tarde do trabalho, fazendo o jantar, lavando a roupa e ter sido campeão e MVP na minha primeira época na NBA, com o maior número de pontos marcados e
terceira melhor marca de assistências (e a minha mãe ainda me acha um inútil)...
Profissionalmente tem sido violento, sendo
o meu trabalho essencialmente diplomático, tanto com o cliente como com o dono
de obra, sendo que ambos têm sido inacreditavelmente difíceis de lidar. Há-de
me fazer bem.
Acho que seria capaz de morar cá, pelo
menos até à procriação. A música deles é muito boa, a noite deles é melhor que
a nossa (fui no outro dia a uma balada de música sertaneja: inacreditável) … As
pessoas são muito a minha onda, malta de sorriso pronto, conversa fácil e a
queda para a brincadeira. Será escusado dizer que sou a delícia do batalhão da
limpeza lá da empresa (a Leonor deve estar a adorar esta parte... nada temas) …
Por outro lado, pecam pela pouca variedade
da comida (todas as semanas o cardápio dá a volta), pelos preços (o do vinho é proibitivo
para um mão-de-vaca como eu), pelo caos e pelas distâncias, que acabam por
resultar no certo isolamento das pessoas... Tudo é longe. Estou "bein
pertxinho do metrô"... o tanas: demoro 25 min em passo marchado.
Como é que se namora numa cidade como
esta? "Só dá pra namorá com vizinho ou colega", e entenda-se como
vizinho aquele que mora num raio de meia hora de carro. Nossa…
Todas as semanas há um dia (dos úteis) que
o teu carro não pode circular nas horas de ponta. O controlo é feito
electronicamente. No fundo, estamos teoricamente a reduzir o trânsito em 20%
(há quem compre um segundo carro só para contornar isto), e mesmo assim é um
caos e uma agressividade de trânsito como nunca vi. Cada um por sim, tudo
coladinho, aquele respeito sul-americano pelo peão... Admito que nos primeiros
três dias, se não fosse uma mão amiga já tinha provado um pára-choques
brasileiro.
Socialmente é o país mesmo partido e
envergonhado com o seu próprio andamento, um pouco como Portugal mas sem
glórias passadas. Brasileiro tem vergonha do seu povo: da violência, da falta
de seriedade, da corrupção, da falta de educação, da superficialidade, da governação...
Apesar da imagem passada para fora de um Brasil em ascensão, a malta acha que isto
é tudo fachada para atrair investimento estrangeiro e que há-de rebentar num
futuro próximo. É incrível que o pessoal da empresa onde estou tem mais medo de
não ter trabalho no próximo ano do que nós… A ver se desenvolvo mais este tema numa próxima oportunidade.
No outro dia fui aos karts com a malta da
empresa. Era o meu bom nome e da minha
pátria que estava em jogo: assunto sério! É nestes momentos que um indivíduo se supera e faz a história! ... ou assim pensava eu... Fiquei na 25ª posição em 30, sendo que atrás de mim ficaram duas raparigas e um tipo que a vomitar à beira da pista na passagem da recta para a curva e contra-curva beira a partir
da 6ª volta...
Hoje regresso a casa, para uma semana de
carnificina de saudades dos meus e da boa mesa. Chega assim ao fim a primeira
parte da aventura.
Até loguinho.
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| Ibirapuera |
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| Ibirapuera |
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| Saco de ratos |
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| Esta cena até ronronava se lhe tocássemos |
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| Arte viva |
| Ainda não sabia da miséria da minha prestação, obviamente |





Chega de saudade!! (a música, não é nenhuma declaração de amor por ti)
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