sexta-feira, 18 de abril de 2014

Fim da primeira parte

A vida vai ganhando contornos de rotina. 
Nos fins- de-semana tenho passado as tardes a ler numa esplanada ou num restaurantezeco com música ao vivo. Tenho feito uma vida boa. Passeio ou corro pelo Ibirapuera, tomo um copo com os amigos, vou a concertos, vou a museus, vou ao teatro (vá, fui... não vou desde a relatada surpresa erótica da última vez), até para a noite eu vou! Ainda vou ter de perceber como é que vou tendo mais tempo livre que em Portugal, mesmo saindo mais tarde do trabalho, fazendo o jantar, lavando a roupa e ter sido campeão e MVP na minha primeira época na NBA, com o maior número de pontos marcados e terceira melhor marca de assistências (e a minha mãe ainda me acha um inútil)... 
Profissionalmente tem sido violento, sendo o meu trabalho essencialmente diplomático, tanto com o cliente como com o dono de obra, sendo que ambos têm sido inacreditavelmente difíceis de lidar. Há-de me fazer bem.

Acho que seria capaz de morar cá, pelo menos até à procriação. A música deles é muito boa, a noite deles é melhor que a nossa (fui no outro dia a uma balada de música sertaneja: inacreditável) … As pessoas são muito a minha onda, malta de sorriso pronto, conversa fácil e a queda para a brincadeira. Será escusado dizer que sou a delícia do batalhão da limpeza lá da empresa (a Leonor deve estar a adorar esta parte... nada temas) …
Por outro lado, pecam pela pouca variedade da comida (todas as semanas o cardápio dá a volta), pelos preços (o do vinho é proibitivo para um mão-de-vaca como eu), pelo caos e pelas distâncias, que acabam por resultar no certo isolamento das pessoas... Tudo é longe. Estou "bein pertxinho do metrô"... o tanas: demoro 25 min em passo marchado.
Como é que se namora numa cidade como esta? "Só dá pra namorá com vizinho ou colega", e entenda-se como vizinho aquele que mora num raio de meia hora de carro. Nossa…
Todas as semanas há um dia (dos úteis) que o teu carro não pode circular nas horas de ponta. O controlo é feito electronicamente. No fundo, estamos teoricamente a reduzir o trânsito em 20% (há quem compre um segundo carro só para contornar isto), e mesmo assim é um caos e uma agressividade de trânsito como nunca vi. Cada um por sim, tudo coladinho, aquele respeito sul-americano pelo peão... Admito que nos primeiros três dias, se não fosse uma mão amiga já tinha provado um pára-choques brasileiro. 

Socialmente é o país mesmo partido e envergonhado com o seu próprio andamento, um pouco como Portugal mas sem glórias passadas. Brasileiro tem vergonha do seu povo: da violência, da falta de seriedade, da corrupção, da falta de educação, da superficialidade, da governação... Apesar da imagem passada para fora de um Brasil em ascensão, a malta acha que isto é tudo fachada para atrair investimento estrangeiro e que há-de rebentar num futuro próximo. É incrível que o pessoal da empresa onde estou tem mais medo de não ter trabalho no próximo ano do que nós… A ver se desenvolvo mais este tema numa próxima oportunidade.

No outro dia fui aos karts com a malta da empresa. Era o meu bom nome e da minha pátria que estava em jogo: assunto sério! É nestes momentos que um indivíduo se supera e faz a história! ... ou assim pensava eu... Fiquei na 25ª posição em 30, sendo que atrás de mim ficaram duas raparigas e um tipo que a vomitar à beira da pista na passagem da recta para a curva e contra-curva beira a partir da 6ª volta...

Hoje regresso a casa, para uma semana de carnificina de saudades dos meus e da boa mesa. Chega assim ao fim a primeira parte da aventura.

Até loguinho.

Ibirapuera


Ibirapuera

Saco de ratos

Esta cena até ronronava se lhe tocássemos

Arte viva

Ainda não sabia da miséria da minha prestação, obviamente



Um comentário:

  1. Chega de saudade!! (a música, não é nenhuma declaração de amor por ti)

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