quinta-feira, 29 de maio de 2014

Rio de Janeiro

Não podia ter apanhado pior altura para chegar. Cheguei no primeiro dia da empresa nas novas instalações: grande confusão, caixas para uma lado, caixotes para outro, telefonemas aos gritos, reuniões em open spaces, sem computador para mim, sem internet para ninguém: tudo à mocada. Pior: tínhamos internet, mas lenta ao ponto de revelar a natureza luciférica que habita adormecida em cada um de nós... até ser invocada...


Palavras sábias de uma das grandes referências da minha vida
No final das arrumações houve tempo de confraternização e de boas vindas ao novo espaço, com direito a discurso do CEO no meio da malta ao nível do discurso do Presidente dos EUA no Dia da Independência... ou mesmo n'O lobo de Wallstreet. Tudo maluco no final, abraços, hurras, melos... até eu admito que talvez me tenha entusiasmado com as palavras do tipo e tenha gritado Oh Captain, my Captain em cima da mesa...

Tenho vindo a realizar que tenho sérios problemas com a autoridade imposta. Estava eu bem habituado à estrutura horizontal das novas soluções de engenharia e à sensatez e abertura da capitania à discussão... e cá já foram tomadas várias decisões erradas apesar da minha contra-argumentação (fortíssima), já me impuseram prazos insensatos e, veja-se, já me deram até um par de ordens... Não podia ser de outro jeito numa empresa grande, mas faz-me alguma confusão esta hierarquia muito marcada, malta a dar ordens a outra. Enquanto que a dívida eterna que tenho com a minha mãe me obriga a prestar-lhe vassalagem sem ripostar, com estes tipos estou entre o cliente tem sempre razão e o não és meu pai, não mandas em mim... Talvez tenha passado uma ou outra vez das marcas... já me responderam até Nossa... você é muito directo... O tipo acima de mim no Rio era algo nervoso, a falta de internet/arquitectura actualizada e as responsabilidades delegadas pelo seu superior que estava de férias davam cabo do pobre coitado. Então mandava-me repetidamente fazer coisas que não me competiam... INDOMÁVEL!! 
Admito que o meu sorriso diplomático já foi mais rasgado e a gargalhada de uma piada vinda de cima mais prolongada...

Comigo trabalhava também uma portuguesa do alto-Minho (acho que era de Lanhelas... ou talvez Fafe...). Que criatura engraçada. Era uma típica mulher portuguesa, com certeza, com um sotaque nortenho escandaloso e uma atitude que punha a malta toda em sentido. Largou tudo e veio para cá. O companheiro foi posto em cheque e neste momento vende pastéis de nata... os sacanas por acaso são bons...

A semana foi passada entre casa e trabalho. Acabei por ter uma vida bem mais agitada do que a que tenho em São Paulo, onde moro num hotel num bairro bem calmo a 10 min a pé do trabalho. No Rio o meu escritório era bem no centro da cidade, ia para o trabalho de metrô, café da manhã ao balcão com o resto da carneirada, uma data de procidementos de segurança para entrar no trabalho ou em casa, tudo à fruta na rua...

Pela primeira vez senti-me inseguro na rua. Andei a fazer o levantamento fotográfico da zona à volta da obra, só por acaso à porta de uma favela... e o dia foi chegando ao fim e eu em trabalho de campo... então era eu dentro do estaleiro de obra separado por grades da dita favela a tirar fotografias às casas à volta... e a malta a olhar-me com uma fome... e depois ainda foi um sarilho para apanhar um táxi...

Chegado o fim de semana: chuva. Enquanto esperava que a malta conhecida acordasse, cruzei o olhar com o Cristo e lá decidi ir ao ponto mais alto da cidade para carimbar o maior número de sítios e inspirar-me para um programa à tarde... as expectativas não eram muito altas. Acho que o melhor ainda foi o caminho até lá, apanhei uma van e a subida do morro no meio do mato e das gentes até foi bem engraçada. Metade da malta com os braços abertos a imitar o redentor e a outra metade no chão para tentar apanhá-lo inteiro na fotografa. Um tipo com as costas largas como eu é normal que tenha problemas a movimentar-se nestes ambientes... Estive lá em cima 10 minutos...
Sem contar com convívios à noite não tive direito a mais nada... Havendo a hipótese de não voltar ao Brasil depois da Copa, estou a organizar-me para passar o meu último fim de semana no Rio... não posso sair daqui sem vestir uma sunga...


A varrer, com Botelho


Mónica e pastel de nata

Eu e Sara Sem-medo

Nação Zumbi


Vista do Cristo
Pão de Açucar, ao longe


Eu e o nazareno no avacalho. Que dois.

O nazareno não há-de achar grande graça a estar em copos de shot...

Eu e a minha colega Cristina Chai




Depois de dois meses nesta vida ainda não consegui comer uma refeição normal nos restaurantes ao quilo. Tenho de aprender a controlar os meus impulsos. Pelo menos é uma alimentação variada.

sábado, 3 de maio de 2014

Regressos e a perda da minha inocência

A semana em Lisboa foi curta mas muito rica. É bom estar de volta aos seus. A desilusão de não ter o meu quarto requalificado foi rapidamente suplantada pela fartura da mesa. Pelos vistos comer começa a ser um dos grandes prazeres da minha vida... devo estar a ficar adulto! Acho que comi peixe todos os dias...
No primeiro dia achei que era boa ideia deixar cair a mota depois de uma entrada triunfante em frente a um par de norueguesas... Ainda tive de lhes pedir ajuda para levantar a mota... Uma vergonha...
No trabalho fui recebido como um ex-combatente, com faixas, lágrimas e salvas de tiros para o ar... E com um abraço cúmplice daquele-cujo-nome-nao-pode-ser-pronunciado... escusado será dizer que os níveis de produtividade disparam, superando até os números obtidos antes da minha partida.
Devia ter feito um piquenique de despedida...

O regresso a São Paulo foi uma alegria. Como os sacanas pediram-me todos uma garrafa de vinho, fui recebido com samba e caipirinhas.
Esta segunda temporada provavelmente demorará mais a passar... o que era novidade deixou de o ser, continuo a comer todos os dias arroz com feijão e parece que estou a perder o magnetismo sobre as Ana Paulas desta vida.

Na quinta-feira estive com a Filipa Jalles. O seu companheiro trabalha cá e ela veio cá passar umas semanas. A minha viagem ao ponto de encontro foi uma animação: o taxista tinha um bafo a álcool tipo pirata, era ordinaríssimo, adepto da adrenalina ao volante e tinha acabado de instalar uma  mini-televisão no táxi. Fui o tempo todo a rir-me, o tipo a abrir, a falar ao telefone, a falar de gajas, a mandar piropos às transeuntes, isto tudo enquando seguia comovido uma versão doblada do Titanic no novo dispositivo. Tendo em conta a felicidade do final, acho não se pode pedir mais do que isto.

Nunca mais me gabo da minha saúde de ferro. Das últimas três vezes que o fiz o meu sistema imunitário fez greve e eu fiz figura de parvo. Ontem estava febril e doía-me um pouco a garganta, hoje tinha a cabeça a rebentar, sem conseguir engolir e a deitar sangue das orelhas... De forma a não comprometer a minha ida para o Rio na segunda feira, lá me convenceram a ir a um hospital onde a tia da minha amiga Juliana é médica, evitando assim a espera e os horrores do sistema de saúde público. Sugeriram-me, para efeitos imediatos, uma injecção intra-muscular de uma cena qualquer... na bunda... Um homem de facto não foi feito para estas coisas... a posição... a exposição...a massagem relaxante... e ainda por cima aquela porcaria doeu-me para caramba, até gani! A sensação é parecida com uma mega cãibra (cãibra x 10^6) no rabo... até tive de ficar sentado de cabeça para baixo durante uns bons minutos para não perder os sentidos... ainda não ando direito e só consigo sentar-me na nádega esquerda.

Parece que o meu maninho já publica artigos em nome próprio em espaços de debate internacionais. Desafio-vos a dar uma espreitadela... o sacana é bom...

http://one-europe.info/how-ukraine-s-crisis-surprised-the-naïve-west



Peixaço no retiro do pescador

Chico e Kika em troca de carícias